Schoenberg, na necessidade de ordenar o sistema atonal, lançou uma bomba (muitos diriam atômica) na Hiroshima musical: o dodecafonismo. Aí tenho que fazer um balão explicativo.
*Tonalismo – A música roda em torno de um centro tonal, ou seja, um acorde. A música pop, por exemplo, é toda tonal. Há uma ideia de consonância no termo, pois há uma série de regras harmônicas que garantem que as notas e progressões de acordes se relacionem a este centro tonal.
*Atonalismo – Abandono do centro tonal. A dissonância não é mais um recurso dramático que se “resolve” em consonância. Como não há regras propriamente ditas, as relações são livres, e a dissonância surge como carro-chefe.
*Dodecafonismo – Partindo do princípio de todas as notas terem igual valor, ordena-se a música em séries de doze notas “relacionadas apenas umas às outras”. Numa composição dodecafônica, todas as séries derivam de uma série inicial. Por exemplo: movimento retrógrado (a série inicia pela última nota da original), inversão de intervalos (o que desce, sobe, e o que sobe, desce), inversão retrógrada (a série invertida em movimento retrógrado), etc. Desta forma organiza-se o caos atonal num sistema lógico e harmônico. Estas séries dodecafônicas podem tanto gerar música que se pareça com algo em Dó Maior quanto diabruras dissonantes.
Um sistema tão rigorosamente organizado como o dodecafonismo abriu um caldeirão de possibilidades na criação musical. Compositores ilustres adotaram o dodecafonismo, e muitos fizeram seu nome as custas do método de Schoenberg. Mas foi necessária mais uma Guerra Mundial para que o mundo sentisse o cheirinho que exalava da tampa aberta.
O cheiro mais forte era a possibilidade de criar música através de operações matemáticas, visto que as composições dodecafônicas são todas possíveis permutações de um determinado esquema. Mas os aromas mais sutis são sempre ignorados pela multidão. E nesta profusão culinária, quem encontrou o ingrediente mais raro e saboroso foi justamente um dos incontáveis alunos de Schoenberg. Seu nome era John Cage. Suas especialidades: a aleatoriedade e o silêncio.
